Costela com “amô”

A rua Maestro Elias Lobo está encravada em uma área nobre de São Paulo. Liga a Estados Unidos, nos Jardins, à Avenida São Gabriel, no Itaim Bibi. Lugar caro. Hotéis chiques, casarões e carrões. Nesse conglomerado eu achei um restaurante simples administrado por uma senhora simpática. Ela chama os clientes de “amô”. Amor com sotaque nordestino. Foi lá que eu provei uma das melhores costelas bovinas da minha vida. O prato custa R$ 14.

O lugar é rústico. Sem luxo nenhum. Poucas opções de salada. Arroz, feijão, farofa e dois ou três acompanhamentos: carne, frango. Ou carne e peixe. Ou peixe e frango. Você se serve à vontade com arroz e feijão e os acompanhamentos ficam por conta da mulher de origem nordestina, aquela que nos chama de “amô”.

A TV sempre está ligada na Record. Neste caso, o almoço é regado à notícias policiais do programa apresentado pelo jornalista Reinaldo Gottino. Os clientes se acomodam em dois ambientes: o primeiro, ao lado do expositor de alimentos, que fica no salão principal. E o segundo na parte dos fundos.

A comida é saborosa. O atendimento é ótimo.

Esta é uma das lembranças que tenho da época em que trabalhei na zona sul de São Paulo, entre abril e outubro de 2016.

Este texto estava perdido em um dos meus arquivos do notebook. Foi uma surpresa lê-lo agora em novembro deste ano. Estava dentro de uma pasta no Google Drive. Aliás achei centenas de coisas interessantes aqui.

E a memória, automaticamente, é transportada para o ano passado. Era um dia nublado de setembro e eu vivia a expectativa das eleições municipais (trabalhava em uma agência de publicidade voltada à campanhas políticas) e pensava ainda, o tempo todo, no meu casamento, que aconteceria em novembro.

Um ano e dois meses se passaram. Estou casado e ansioso quanto a chegada do primeiro filho. Nunca mais voltei à rua Maestro Elias Lobo, mas, confesso que, até hoje, sinto o gosto e a consistência daquela costela bovina desmanchando no paladar. É muito “amô” em SP.  

 

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Sou papai – menino ou menina?

“Amor, não precisa pega Uber porque eu vou aí te buscar rapidinho”.

Deu tempo. Consegui resolver umas demandas logo cedo e ainda correr para pegar a Carol. Ufa, às 8h30 estávamos sentados aguardando a enfermeira chamar para mais um exame de imagem do nosso bebê.

Acabamos de passar pelos 5 meses de gestação: 22 semanas. Já rompemos a metade do processo e agora seguimos rumo à reta final. Carol já sente algumas mexidinhas. A barriga vem ganhando volume e o simples fato de subir uma escada deixa a futura mamãe ofegante.

Lá estávamos nós, mais uma vez, na sala do ultrassom (apertada) e de luz baixa. Tudo pronto para o tal morfológico começar. O segundo exame de imagem deste tipo pelo qual éramos submetidos. Gel na barriga da Carol e frio na minha. O bebê apareceu na tela.

O médico de origem japonesa e estatura baixa verificou tudo. Desde os dedos do pé até os ossinhos dos braços e pernas. Vimos o rosto do neném: boca e olhos abertos. Até os buracos da narina foram focalizados. Espinha dorsal, órgãos, batimentos e a cabecinha também passaram pelo crivo do doutor através da imagem monocromática. Tudo normal, graças a Deus.

Menino ou menina?

“Olha só, pelo o que vi aqui é 99% de chance de ser menina. Digo 99% porque o 1% é de Deus. Afinal, é Ele que manda em tudo”, justificou o doutor.

Antes de deixarmos a sala o médico ainda entregou uma lembrancinha à Carol: a pequena caixa continha uma fralda. Desci as escadas vibrando ao ter certeza que serei pai de uma menina. Que emoção!

Valentina, papai e mamãe estão te esperando!

Vó Anna

O café na casa da minha avó Anna era preto e já adoçado. Ficava em uma garrafa vermelha (com uma estampa xadrez). Esta lembrança me veio à cabeça na manhã de uma quinta-feira fria de julho, enquanto eu tomava um cafezinho preto no copo plástico e mordiscava uma esfiha de carne. Aquele paladar me levou para a cozinha do imóvel da rua João Balbino Dias, 287 – Conjunto Residencial Iraí, Suzano-SP.

Minha avó, mãe da minha mãe, nasceu em Guararema-SP. Toda vez que contava algo relacionado à sua infância citava a figura do pai. “Papai sempre dizia que…” “Ah, meu papai nos contava…”. Eu não conheci o meu bisavô, mas, baseado nas informações apuradas por mim durante a infância, posso contextualizá-lo como sendo um senhor moreno que gostava de música (tocava sanfona). Um sujeito extremamente honesto e justo.

Hoje eu vejo muita coisa da minha avó em minha mãe. Católica, devota de Nossa Senhora Aparecida, dona de uma fé inabalável, ansiosa, bondosa e transparente. Até mesmo a suavidade com que minha mãe encosta sua mão direita em meu peito quando me despeço e vou: “Divino Espírito Santo te acompanhe” (com a voz baixa) é bem semelhante ao toque da minha vó Anna dizendo: “Vai com Deus, fio”.

Ainda na manhã desta quinta, logo após ter tomado o café preto com a esfiha, minha irmã Rita me enviou uma foto, via WhatsApp, da minha mãe na igreja Matriz de Suzano. Ela estava retornando de uma consulta médica em Mogi das Cruzes e resolveu passar por lá. E, mais uma vez, lembrei da minha avó vendo aquela foto. Dona Anna era frequentadora assídua das missas dominicais naquela igreja. Tanto que várias músicas católicas me remetem diretamente à figura da minha avó.

Na madrugada de 16 de maio – o dia em que soube que me tornaria papai – sonhei com dona Anna. Ela me disse algo, meio sem sentido, não me lembro direito. No entanto, acordei assoberbado e pensativo naquela madrugada. Talvez pudesse ser um sinal. Ou não. Ou quem sabe um forma de dizer o seguinte: “Eu estou sempre com você, fio”.

E que eu beba muitos e muitos cafés pretos nesta vida para brindar a herança de amor deixada por minha avó em nosso seio familiar.

Dona Anna partiu em março de 2008.

Sou papai – a paixão

Me pego pensando no bebê em vários momentos do dia. É como estar apaixonado por alguém. Sabe aquele início de relacionamento? Só que, neste caso, estou apaixonado por alguém que eu ainda não conheço. É diferente, rs! Mesmo assim posso afirmar que já sinto uma conexão extraordinária com minha prole.

Carol está tendo uma gravidez até que tranquila. Está certo que é ela que sente os enjoos, mas, fora isso, nada de anormal. Tem fadiga em alguns dias e, em certas noites, demora pegar no sono. “Sinto uma espécie de azia”, tenta explicar a mãe de primeira viagem.

Durante o último ultrassom com um médico japonês de estatura baixa, vimos nosso bebê se mexendo. Esticava as perninhas e escorregava as costas na parede do útero. Uma brincadeira solitária naquela escuridão maternal. Que imagem linda. “Está agitadinho”, disse o médico sorrindo com os olhos espertos no monitor.

Lá estava eu, no sofá confortável de olho na tela. Se o bebê pudesse me ver ia rir com a cara de bobo do papai, rs! O mundo parou naquele momento. Estava tudo bem com a cria, graças a Deus. Medidas nos conformes e batimentos dentro dos padrões para as 12 semanas de gestação naquela altura, início de julho. São apenas 6 centímetros de ser humano e uma imensidão de amor aqui do lado de fora do abdômen.

“Aguardem só um pouquinho. O médico quer falar com vocês”, alertou a enfermeira assim que o procedimento terminou.

E lá veio ele com a cara risonha. O típico profissional que ama o que faz.

Nos deu a mão e disse em voz baixa: “Parabéns”.

 

Confira mais um texto da série SOU PAPAI
https://blogladod.wordpress.com/2017/06/27/sou-papai-a-descoberta/

Sou papai – a descoberta

Foi o sinal vermelho mais demorado que eu vi.

Era noite. Coloquei e tirei a blusa várias vezes. Dentro do carro, a espera do sinal verde, eu e Carol estávamos ansiosos. Víamos-nos a menos de dois quilômetros da casa dos pais dela. Era a distância que nos separava de um dos momentos mais emocionantes, até então, de nossas vidas. Havia chegado a hora de dar a notícia: há um bebezinho se formando em nosso seio familiar. A Carol está grávida.

Meia hora antes, nós dois estávamos na casa dos meus pais. Lá foi a primeira parada para o anúncio triunfal: “A Carol está grávida”, eu disse com a voz trêmula no meio da sala diante dos meus pais e irmãos. Para o momento especial, Carol entregou à minha mãe uma roupinha de bebê. Um símbolo que marcará para sempre aquele momento mágico.

Na casa dos pais dela, após nos desvencilharmos do sinal vermelho e rompermos os dois quilômetros, teve mais emoção. “Filha, você está grávida?” perguntou minha sogra com a voz chorosa ao desembrulhar a roupinha (body) do bebê. O pai da Carol demorou um pouco mais para entender. Tentei filmar, mas estava tão emocionado que o vídeo, todo sem enquadramento, durou 21 segundos. Só apareceu o chão da cozinha.

Tudo começou naquela manhã, dia 16 de maio. Recebi um áudio da esposa Carol via WhatsApp. Deixei pra ouvir depois. E vieram duas mensagens texto: “ouve, ouve…” Imaginei que era algo importante. Era muito mais que importante.

No áudio Carol dizia que havia feito um teste de gravidez de farmácia, em razão do atraso de alguns dias da menstruação: deu positivo. Correu pro laboratório, colheu sangue e o resultado só ficaria pronto às 19h. Carol comprou mais um teste de farmácia (um mais sofisticado). Bingo, mais um positivo.

Chegava o carnaval de 2018, mas não chegava às 19 horas daquela terça diferente. Porém, mesmo antes desse horário o laudo foi disponibilizado no sistema: eram números que comprovavam uma gravidez. Eu vou ser papai.

Semanas mais tarde chegou o dia do ultrassom. Nosso bebê já tinha alcançado as oito semanas de gestação. Na sala escura, com ar condicionado ligado, me vi sentado em um sofá confortável. No telão, a imagem ampliada mostrava um embrião. De repente, nosso mundo parou: “tum, tum, tum, tum,…” era o coraçãozinho batendo forte e rápido. Como pode um ser tão pequenininho já ter um coração funcionando?

Foi a música mais bonita que eu ouvi.

 

Confira mais um texto da série SOU PAPAI
https://blogladod.wordpress.com/2017/07/14/sou-papai-a-paixao/

O que é felicidade?

Terça-feira, 9 de maio de 2017.

Às 8h54, me deparo com uma postagem no Facebook do amigo fotógrafo Daniel Carvalho.

“A felicidade está nas pequenas e simples coisas da vida”.

A legenda dá o tom a 4 fotos: em todos os retratos há uma criança de touca azul na garupa de uma bicicleta.

Aliás, o que é felicidade para você?

Na semana passada, parei na casa da minha mãe para almoçar. Ela havia chegado da quimioterapia e sentou-se à mesa de frente comigo. Não lembro o que comemos. Mas minha mãe estava feliz.

Ela riu, comentou algo sobre a nossa cachorra Chanel. A cadela de pelos longos pretos tem mania de deitar encostada no portãozinho de madeira na entrada da cozinha.

Mamãe chega meio sonolenta da quimioterapia. Toda semana recebe uma dose cavalar do medicamento na veia grossa do braço esquerdo. Às vezes fura-se as costas da mão. Ela diz que aí dói bastante. O líquido entra rasgando e vai direito combater o problema. Essa “guerra” causa agudos efeitos colaterais.

Mesmo assim ela estava feliz. A voz pastosa, às vezes no estilo “sanduíche, íche, íche…”, embala as conversas pós químio. Logo depois do almoço, minha mãe costuma repousar. O efeito colateral de um dos remédios dá um soninho pesado, segundo ela mesma define.

A felicidade da minha mãe tinha motivo.

Naquele dia, após um ano e nove meses de tratamento, pela primeira vez, a enfermeira do hospital (com muito cuidado e carinho) conseguiu aplicar o medicamento na veia grossa do braço direito da mamãe. E ela ficou feliz por isso.“Sempre furavam o esquerdo e ele já estava muito marcado. Nunca dava certo de eu tomar a químio no braço direito. E hoje deu. Fiquei feliz porque poderei descansar o outro braço”, disse rindo e explicando o motivo da alegria momentânea.

O que é felicidade para você?