Sou papai – a paixão

Me pego pensando no bebê em vários momentos do dia. É como estar apaixonado por alguém. Sabe aquele início de relacionamento? Só que, neste caso, estou apaixonado por alguém que eu ainda não conheço. É diferente, rs! Mesmo assim posso afirmar que já sinto uma conexão extraordinária com minha prole.

Carol está tendo uma gravidez até que tranquila. Está certo que é ela que sente os enjoos, mas, fora isso, nada de anormal. Tem fadiga em alguns dias e, em certas noites, demora pegar no sono. “Sinto uma espécie de asia”, tenta explicar a mãe de primeira viagem.

Durante o último ultrassom com um médico japonês de estatura baixa, vimos nosso bebê se mexendo. Esticava as perninhas e escorregava as costas na parede do útero. Uma brincadeira solitária naquela escuridão maternal. Que imagem linda. “Está agitadinho”, disse o médico sorrindo com os olhos espertos no monitor.

Lá estava eu, no sofá confortável de olho na tela. Se o bebê pudesse me ver ia rir com a cara de bobo do papai, rs! O mundo parou naquele momento. Estava tudo bem com a cria, graças a Deus. Medidas nos conformes e batimentos dentro dos padrões para as 12 semanas de gestação naquela altura, início de julho. São apenas 6 centímetros de ser humano e uma imensidão de amor aqui do lado de fora do abdômen.

“Aguardem só um pouquinho. O médico quer falar com vocês”, alertou a enfermeira assim que o procedimento terminou.

E lá veio ele com a cara risonha. O típico profissional que ama o que faz.

Nos deu a mão e disse em voz baixa: “Parabéns”.

 

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Sou papai – a descoberta

Foi o sinal vermelho mais demorado que eu vi.

Era noite. Coloquei e tirei a blusa várias vezes. Dentro do carro, a espera do sinal verde, eu e Carol estávamos ansiosos. Víamos-nos a menos de dois quilômetros da casa dos pais dela. Era a distância que nos separava de um dos momentos mais emocionantes, até então, de nossas vidas. Havia chegado a hora de dar a notícia: há um bebezinho se formando em nosso seio familiar. A Carol está grávida.

Meia hora antes, nós dois estávamos na casa dos meus pais. Lá foi a primeira parada para o anúncio triunfal: “A Carol está grávida”, eu disse com a voz trêmula no meio da sala diante dos meus pais e irmãos. Para o momento especial, Carol entregou à minha mãe uma roupinha de bebê. Um símbolo que marcará para sempre aquele momento mágico.

Na casa dos pais dela, após nos desvencilharmos do sinal vermelho e rompermos os dois quilômetros, teve mais emoção. “Filha, você está grávida?” perguntou minha sogra com a voz chorosa ao desembrulhar a roupinha (body) do bebê. O pai da Carol demorou um pouco mais para entender. Tentei filmar, mas estava tão emocionado que o vídeo, todo sem enquadramento, durou 21 segundos. Só apareceu o chão da cozinha.

Tudo começou naquela manhã, dia 16 de maio. Recebi um áudio da esposa Carol via WhatsApp. Deixei pra ouvir depois. E vieram duas mensagens texto: “ouve, ouve…” Imaginei que era algo importante. Era muito mais que importante.

No áudio Carol dizia que havia feito um teste de gravidez de farmácia, em razão do atraso de alguns dias da menstruação: deu positivo. Correu pro laboratório, colheu sangue e o resultado só ficaria pronto às 19h. Carol comprou mais um teste de farmácia (um mais sofisticado). Bingo, mais um positivo.

Chegava o carnaval de 2018, mas não chegava às 19 horas daquela terça diferente. Porém, mesmo antes desse horário o laudo foi disponibilizado no sistema: eram números que comprovavam uma gravidez. Eu vou ser papai.

Semanas mais tarde chegou o dia do ultrassom. Nosso bebê já tinha alcançado as oito semanas de gestação. Na sala escura, com ar condicionado ligado, me vi sentado em um sofá confortável. No telão, a imagem ampliada mostrava um embrião. De repente, nosso mundo parou: “tum, tum, tum, tum,…” era o coraçãozinho batendo forte e rápido. Como pode um ser tão pequenininho já ter um coração funcionando?

Foi a música mais bonita que eu ouvi.

 

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O que é felicidade?

Terça-feira, 9 de maio de 2017.

Às 8h54, me deparo com uma postagem no Facebook do amigo fotógrafo Daniel Carvalho.

“A felicidade está nas pequenas e simples coisas da vida”.

A legenda dá o tom a 4 fotos: em todos os retratos há uma criança de touca azul na garupa de uma bicicleta.

Aliás, o que é felicidade para você?

Na semana passada, parei na casa da minha mãe para almoçar. Ela havia chegado da quimioterapia e sentou-se à mesa de frente comigo. Não lembro o que comemos. Mas minha mãe estava feliz.

Ela riu, comentou algo sobre a nossa cachorra Chanel. A cadela de pelos longos pretos tem mania de deitar encostada no portãozinho de madeira na entrada da cozinha.

Mamãe chega meio sonolenta da quimioterapia. Toda semana recebe uma dose cavalar do medicamento na veia grossa do braço esquerdo. Às vezes fura-se as costas da mão. Ela diz que aí dói bastante. O líquido entra rasgando e vai direito combater o problema. Essa “guerra” causa agudos efeitos colaterais.

Mesmo assim ela estava feliz. A voz pastosa, às vezes no estilo “sanduíche, íche, íche…”, embala as conversas pós químio. Logo depois do almoço, minha mãe costuma repousar. O efeito colateral de um dos remédios dá um soninho pesado, segundo ela mesma define.

A felicidade da minha mãe tinha motivo.

Naquele dia, após um ano e nove meses de tratamento, pela primeira vez, a enfermeira do hospital (com muito cuidado e carinho) conseguiu aplicar o medicamento na veia grossa do braço direito da mamãe. E ela ficou feliz por isso.“Sempre furavam o esquerdo e ele já estava muito marcado. Nunca dava certo de eu tomar a químio no braço direito. E hoje deu. Fiquei feliz porque poderei descansar o outro braço”, disse rindo e explicando o motivo da alegria momentânea.

O que é felicidade para você?

Emerson Alexandre do Prado: o faxineiro que mantém uma ONG com salário de R$ 880

O tempo de Emerson Alexandre do Prado, 39 anos, estava contado naquela manhã de sábado: bateria o cartão de ponto às 12h30.

Sua primeira missão era lavar os dois banheiros (masculino e feminino) no hipermercado onde trabalha como faxineiro em Suzano, cidade da Grande São Paulo.

Antes de começar a trabalhar, marcamos um bate-papo no estacionamento do estabelecimento, mais precisamente às 10h30. “Eu ainda tenho que ir ao centro da cidade para carregar o meu cartão BOM [Bilhete Ônibus Metropolitano]”, explicou enquanto ria.

Emerson, também conhecido como Alexandre, está acostumado com as horas contadas rigorosamente em seu dia a dia. Além do trabalho diário, durante a semana, ele corre atrás de donativos para serem entregues em orfanatos e asilos da região do Alto Tietê.

No final da noite, com a ajuda de voluntários, ainda tem tempo para entregar uma sopa às pessoas em situação de rua.

O sonho do faxineiro é claro: ver sua ONG prosperar: “Não quero dinheiro. Não quero autopromoção. Meu sonho é ver as doações aumentarem. Com mais doações, eu posso ajudar mais pessoas”, prevê olhando para horizonte de carros estacionados no amplo espaço entre o Hipermercado Davó e o Suzano Shopping.

 
“Não quero dinheiro. Não quero autopromoção. Meu sonho é ver as doações aumentarem”. (Foto: Douglas Pires)

A ONG nasceu quando ele tinha 13 anos, em 1990. A base foi um clube de Ciências criado por alunos da Escola Estadual Leda Fernandes Lopes, no bairro Vila Maria de Maggi, em Suzano.

A mãe de Emerson trabalhava na escola e ele recebia bastante incentivo dos professores. “O grupo de Ciências também começou a fazer trabalhos sociais. Nesta época, fui convidado a participar de um trabalho social com o Betinho. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente”, diz.

Desde então, Emerson não parou mais.

Foi driblando as dificuldades, principalmente a falta de dinheiro, e mantendo a assistência que até hoje dá às entidades que dependem de doações.

“Um amigo da época da escola está comigo até hoje. É o Ricardo. Foi ele que deu o nome para nossa ONG. Ela se chama Science, que é Ciências em inglês. Atualmente, fazemos doações em creches de Suzano, Sociedade de Amparo Ao Menor Paulo de Tarso, em Poá. Também fazemos visitas no asilo São Vicente de Paula. Geralmente estas visitas ocorrem aos domingos”.

Durante a entrega do sopão na madrugada, o grupo de voluntários tem um só objetivo: matar a fome e o frio de pessoas. A sopa é preparada em sua casa, no bairro Miguel Badra. De lá, o grupo se reúne e sai pelas ruas da cidade.

“Nós encontramos moradores de rua e prostitutas. Não estamos lá para julgar e sim para ajudar essas pessoas. Nós alimentamos quem precisa”.

Toda essa estrutura de solidariedade depende dos R$ 880 mensais recebidos pelo faxineiro. “Quando eu recebo separo tudo em envelopes. Cada envelope é destinado para alguma coisa. Eu tenho uma vida simples e está de bom tamanho. Como pouco, sabia? Minha marmita é bem pouquinho. Não tenho luxo”

“Não tenho luxo”. (Foto: Douglas Pires)

Recentemente, foi procurado por um político importante do Alto Tietê:

“Ele apertou a minha mão e disse que me acompanha pelo Facebook. Pediu para eu procurá-lo em seu escritório, mas eu não fui, não. Eu não quero me envolver com política. As pessoas têm que aprender a votar certo. Será que alguém vai lembrar do preço atual do feijão na hora que votar agora em outubro?”.

Emerson é o filho caçula de uma família de seis irmãos. Viveu uma infância difícil. O pai, já falecido, agredia a mãe diante dos filhos.

Havia ainda mais um obstáculo: a fome. Não tinham o que comer: “Eu bebia água com açúcar no café da manhã”, relembra.

Em vez de revolta, Emerson foi atrás de uma saída. “Eu queria ter brinquedos e não podia. Sabe o que eu fazia? Eu mesmo os construía com material reciclável. Fazia aviãozinho e também bonequinha para minha irmã”, diz.

Talvez a dificuldade acabou se tornando uma aliada.

Emerson não reclama da vida. Nossa conversa durou pouco mais de uma hora e em nenhum momento ele fez lamentações. Muito pelo contrário.

O faxineiro, que ficou quase todo o tempo da entrevista com as mãos nos bolsos da blusa de moletom azul marinho, lança um um olhar esperançoso na direção do futuro. “Eu recebi muito apoio dos professores da escola onde minha mãe trabalhou. É que depois de um tempo nós nos tornamos caseiros da escola esse foi o meu ambiente na infância e juventude. Tive uma boa formação. Eles [professores] me ajudaram nesta formação”.

Emerson Alexandre do Prado. (Foto: Douglas Pires)

Em 2013 a ONG quase parou as atividades. O pai de Alexandre morreu em maio daquele ano. “Eu perdoei meu pai por tudo o que passamos na infância. Todo filho perdoa o pai. A morte dele foi difícil. Na época o caso foi parar na mídia pois houve uma suspeita de erro médico. Bom, o caso está na Justiça”.

Atualmente, o presidente da ONG usa o Facebook para ajudar a divulgar os trabalhos sociais. É essa a sua principal ferramenta para fazer com que as pessoas conheçam seu projeto. Já são 100 colaboradores, por exemplo.

Depois de lavar os banheiros, naquele sábado, Emerson ainda faria a limpeza do setor de hortifruti e o estacionamento.

Durante o resto do dia, ficaria responsável por manter a organização da loja até às 22h. “Eu gosto de ser faxineiro. Sinto prazer fazendo isso”, finaliza.

A matrícula

Lembro como se fosse hoje.

Era algum dia do segundo semestre de 1.983. Tinha 6 anos e minha mãe 31.
Estávamos em uma fila no pátio da Escola Marques Figueira, no centro de Suzano. Faltava pouco para minha matricula na 1ª série ser efetivada. Nada de computadores. Um carimbo em um papel e a informação: “As aulas começam no dia…”. Deu frio na barriga e minha mãe me tranquilizou: “Você não fez pré-escola, mas logo irá se acostumar com a escola”, explicou.

Naquela manhã, naquela fila, me lembro ainda de uma senhora de pele negra. Tinha um lenço nos cabelos e uma cara tranquila.
Meses depois, o primeiro dia foi normal. Fiquei ansioso, mas nada que me fizesse voltar para casa como ocorreu com algumas crianças. Sentei em uma fileira lá no canto esquerdo da sala. Se não me engano, as aulas começavam às 8h.

Poucos minutos após o início da minha vida escolar, vi meu pai na porta da sala. Ele tinha trabalhado à noite inteira em uma metalúrgica em Mogi das Cruzes e, antes de ir para casa (morávamos ali perto da escola), passou para ver o seu primeiro filho, em seu primeiro dia na escola.

A professora era Claudete Diniz; ela e muitos dos meus coleguinhas de sala ainda circulam por Suzano nos dias atuais. Estamos sempre nos cruzando pelas ruas. Isso tem se tornardo cada vez mais frequente em minha rotina, desde que passei a trabalhar em Suzano. Nos últimos 12 anos, minha vida profissional se passou em Mogi das Cruzes e em São Paulo.

A rotina mudou. Tem vez que vou para o trabalho à pé. E a rua Sara Cooper, a rua da Escola Marques Figueira, faz parte do meu trajeto. Recentemente, passando bem em frente ao colégio, me deparei com o Francisco, um amigo da escola. Ele ainda mora na mesma casa, bem em frente ao Marques Figueira. Nos falamos rapidamente ali na calçada, como se estivéssemos atrasados para entrar na aula em uma manhã de vento gelado de outono. Aquela terça-feira me fez voltar à 1983, o dia da minha matrícula.

A senhora de pele negra que estava na fila, de lenço nos cabelos, é a mãe do meu colega Francisco.

Café na padoca

“Tem um lugar ali, ó”, indicou o copeiro da padoca de nariz fino e cara sorridente. Era 7h25. Minha percepção periférica ainda estava em “loading” e eu em pé queimando o beiço no café com leite fumegante (ligeiramente mais escuro). Nem tinha percebido um banco vazio no meio do balcão lotado da padoca suzanense naquela manhã.

As pessoas falam alto logo cedo. As vozes se misturavam com chiado da calefação na chapa quente. Mais duas fatias de queijo mussarela derretiam. O copeiro de nariz fino cumprimentou uma pessoa dois lugares à minha esquerda. E eu também conheço o sujeito cumprimentado. “Cara, me desculpe, estou meio dormindo ainda”, me justifiquei com o amigo barbudo.

cafe

Tenho mania de ficar olhando para um lugar fixamente quando ainda tenho sono. Na verdade, diferente desta situação da padoca, eu também gosto de conversar logo cedo. Principalmente quando estou em casa com minha esposa. Mas naquele dia, após poucas horas de sono, eu ainda estava quieto.

A manteiga derretida no pão francês me chamou a atenção. Eu não gosto de muita manteiga derretida. Mas nem reclamei. O copeiro atende ao lado de uma moça sorridente e uma senhora magrinha.  Quem cuida da chapa é um senhor com sotaque nordestino. Os quatro são bem legais. Conhecem vários clientes pelo nome. Aquela quarta-feira era o segundo dia que eu tomava café ali cedinho. No dia anterior, o copeiro tentava descrever sua aparência na infância. “Eu era mais magro que este dedo aqui”, mostrou o anelar esquerdo. Hoje ele ostenta uma barriguinha sobre o avental vermelho.

Já na quinta-feira ele fez o seguinte comentário com um dos clientes do balcão lotado: “Cara, a segunda temporada é bem melhor”, Um fragmento de conversa. A avaliação de alguma série no Netflix. E é assim que eu começo assistir séries. Sempre após a indicação de alguém. Mas nem percebi sobre qual eles estavam falando.

Fui mais uns dois dias seguidos lá na padoca. Num desses pensei em pedir um misto quente, mas desisti em cima da hora. E fui de pão com manteiga mesmo. Comi bem devagar. Mirei no malabares do copeiro de nariz fino durante a lavagem de copos. Foram 10 seguidos enquanto eu ouvia, de novo, o chiado forte da chapa.

Tudo o que o copeiro pede o cara da chapa entende. Às vezes as demandas aumentam de repente, e ele, o cara da chapa, não esquece. E nem fica bravo. E nem diz não!

Antes de ir embora eu resolvi pedir uma garrafa d’água para levar na mochila:

– Quero uma água, por favor

– Ali na geladeira.

– Não achei.

E o copeiro:

– Então zerou. Vou ficar devendo.

Foi o primeiro não que eu recebi dentro daquela padoca, rs!